▮ Ética no Serviço Público

Entre conveniência e responsabilidade pública

Escrevo em primeira pessoa porque não acredito em reflexões impessoais sobre ética. Cada um de nós carrega sua própria medida. No fim das contas, o serviço público é feito de pessoas concretas, com virtudes e fragilidades. A ética é o que organiza essas pessoas em torno de algo maior do que seus interesses imediatos.

É assim que começo esse texto.

Há temas que parecem óbvios demais para exigir reflexão. Ética é um deles. Fala-se tanto, repete-se tanto, que o assunto corre o risco de virar cartaz de parede, frase de encerramento de palestras, discurso protocolar de posse. Ainda assim, sempre que a cidade sofre ou a confiança se desgasta, é para esse território que o olhar retorna.

Escrevo sobre ética não como quem observa de fora, mas como quem já esteve sentado à mesa onde decisões são tomadas com pressa, com pressão e com expectativas cruzadas. Confesso que não sei falar da ética (ou falta dela) dos grandes escândalos, aquela que viraliza nas redes sociais. Então me atenho à ética silenciosa das segundas-feiras comuns, das escolhas imperceptíveis, mas que constroem ou corroem uma administração.

Atuar com ética é bem mais simples do que muitos imaginam. O difícil não é entender o que deve ser feito. O difícil é suportar as consequências. Ética não é mistério filosófico; é disposição prática.

No serviço público, como você sabe ou supõe, a tentação maior não está em grandes desvios. Ela aparece em atalhos discretos. Um documento que poderia ser analisado com mais atenção, mas é assinado para não atrasar a agenda. Uma contratação que deveria esperar esclarecimentos, mas é liberada para evitar desgaste político. Nada disso, isoladamente, parece capaz de abalar uma cidade. Juntos, esses pequenos desvios criam uma cultura.

Já me vi diante de decisões em que o caminho mais rápido era também o mais frágil. A máquina pública adora velocidade quando ela favorece a aparência de eficiência. Mas eficiência sem retidão é uma vitória curta. Pode produzir resultado imediato, mas cobra depois, em forma de desgaste institucional e descrédito.

Infelizmente, em órgãos públicos de norte a sul, predomina um terreno fértil para justificativas. “É assim que sempre foi.” “Se não fizer, outro fará.” “Não vale a pena comprar essa briga.” São frases que circulam com naturalidade. No início, elas soam como conselhos de prudência. Aos poucos, transformam-se em licença para acomodação.

Percebi que a ética, nesse meio, não exige heroísmo diário. Exige constância. Exige coerência entre o que se defende em público e o que se decide em privado. Exige lembrar que cada processo, cada despacho, cada contrato carrega a confiança de quem não está na sala.

Há algo de profundamente humano na ética pública. Ela revela quem somos quando o poder está ao alcance da mão. O poder seduz pela possibilidade de decidir sem prestar contas. A ética, ainda bem, recoloca limites. Não por medo de punição, mas por respeito à função exercida.

Costumo dizer que o serviço público não é propriedade de quem o ocupa. Ele é empréstimo. O cargo passa, a instituição permanece. Quando essa consciência se enfraquece, decisões passam a atender a interesses momentâneos, e o município começa a perder sua forma.

Agir com ética, para mim, tornou-se um exercício de memória. As cidades são feitas de gente que acorda de madrugada, que paga impostos, que confia. Cada vez que cedo a uma conveniência, ainda que pequena, não estou apenas resolvendo um problema administrativo. Estou alterando a relação entre poder e confiança.

Existe também uma dimensão prática pouco mencionada. A ética simplifica a vida administrativa. Ela reduz a necessidade de justificativas elaboradas. Quem decide dentro de limites claros dorme melhor e explica melhor. Não precisa de narrativas complexas para sustentar escolhas. A coerência é a melhor defesa.

Vejo, com preocupação, a tendência de tratar ética como obstáculo à eficiência. Como se agir corretamente fosse sinônimo de lentidão. Essa oposição é falsa. Processos organizados, decisões fundamentadas e critérios estáveis produzem menos retrabalho, menos conflito e menos desgaste. A retidão não atrasa; ela evita atalhos que se transformam em problema.

Não escrevo estas linhas como quem se coloca acima dos outros. Também já hesitei. Também já senti a pressão de decidir rápido, de agradar, de evitar conflito. A diferença, acredito, está na disposição de revisar a própria postura, de reconhecer fragilidades e de reconstruir critérios.

A ética no serviço público não se sustenta apenas em códigos ou manuais. Ela depende de cultura. Cultura se constrói por repetição de escolhas. Cada gestor, cada servidor, contribui para formar o ambiente em que trabalha. Quando a retidão vira hábito, a tentação perde força.

Talvez a reflexão mais incômoda seja esta: é mais fácil agir com ética do que conviver com as consequências de não agir. A facilidade não está na ausência de conflito, mas na leveza que acompanha decisões transparentes. O caminho tortuoso pode parecer mais confortável no início, mas exige manutenção constante.

Se me perguntam o que é ética no serviço público, respondo que é a decisão de manter limites mesmo quando ninguém exige. É o compromisso de lembrar que a função é maior do que a conveniência. É a escolha de sustentar princípios mesmo quando o ambiente insiste em sugerir outra rota.

A cidade percebe. Pode não identificar imediatamente onde está o problema, mas sente quando a administração perde rumo. Confiança não nasce de discursos. Ela se edifica na repetição das atitudes.

Agir com ética não transforma ninguém em herói. Transforma em referência. E referência, no serviço público, vale mais do que aplauso momentâneo.

Fabrício Farias

O poder testa o caráter e a ética organiza o limite.